Não consta que António Cavacas alguma vez se tenha preocupado em fazer um desenho ou animá-lo, mas sabemos como soube assumir como missão a força da animação.
Jurista, com um longo passado na banca, chega à Cooperativa Nascente e ao Cinanima e é ali que acontece o encontro modelar com o cinema de imagem a imagem.
De uma entrega total, transportou consigo o rigor da lei e das finanças em cada um dos seus múltiplos passos, ajudando a que Espinho se tenha assumido durante anos, como a centralidade do devir da animação portuguesa.
Sempre presente, longe da ribalta, pugnando continuamente pela verdade dos acontecimentos, ajustando e consertando conflitos, promovendo aproximações, o seu trabalho infindável foi marcante e crucial para que a excelente equipa de trabalho do mais antigo festival de cinema em Portugal, se pudesse manter numa atividade cimeira, inspiradora e reconhecida.
O seu papel conciliador, sempre atento e construtivo, ajudou a manter o Cinanima, mesmo quando forças políticas teimavam aberrantemente em remar para outro lado.
No site do seu festival, marcadamente se lê:
“Homem culto, leitor assíduo de autores clássicos e contemporâneos, a par de cinéfilo e grande conhecedor do cinema de animação, era pessoa de trato fácil e desprovida de pretensões que nada acrescentariam às suas naturais competências pessoais e aos seus notórios princípios humanistas.
Membro de diversas associações espinhenses, foi no âmbito da Cooperativa Nascente que mais e melhor deu provas das suas capacidades, tendo contribuído decisivamente para a implantação e desenvolvimento desta entidade cultural, desde a década de 80 do século passado.
Aqui exerceu as mais diversas funções e assumiu múltiplas responsabilidades, que aumentaram com a morte de António Gaio, de quem foi colaborador direto durante muitos anos e nas mais variadas áreas da Nascente, em particular no grande desafio anual de garantir a realização de sucessivas edições do CINANIMA, acabando por vir a assumir a direção executiva do Festival durante anos.”
Já nos anos 90 e na primeira década do novo século, António Cavacas trouxe igualmente estes seus princípios de missão para a Cartoon Portugal.
A chegada do Programa MEDIA da Comunidade Europeia teve fortes repercussões no cinema de animação e implicou a criação de um novo vínculo para os animadores portugueses. Em tempos difíceis e recusando a presidência, António Cavacas dinamizou a atividade desta entidade, que nasceu como ponte da animação portuguesa com Bruxelas.
Na altura, todos lhe sublinhámos o poder da palavra seriedade e a justeza do seu compromisso de missão.
Na viragem do milénio, o seu trabalho incansável permitiu a concretização de uma nova animação portuguesa, onde passaram a caber mais autores, mais animadores e onde os filmes se foram multiplicando.
António Cavacas acompanhou e suportou parte significativa desta crucial mudança.
Fez, como sempre tinha feito na sua entrega cívica à sua cidade. Os que, com ele tiveram o privilégio de trabalhar, sabiam que as reuniões tinham um tempo preciso, porque logo de seguida António Cavacas já estaria a correr para os Bombeiros ou outra agremiação para quem a sua presença também era imprescindível.
Tinha 77 anos, uma saúde que se vinha a debilitar e que nos últimos anos o obrigaram a ter de adiar constantemente a presidência do júri do Festival de Cinema AVANCA.
Teria sido esta uma primeira homenagem...
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